Urbanismo / Casas Pátio no Areeiro
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Casas Pátio no Areeiro
Coimbra. 1999-2004

Sobre a encosta poente de uma das antigas quintas agrícolas do Areeiro
a sul da cidade de Coimbra, voltada para o amplo vale do Rio Mondego,
numa parcela de terreno de 8564m2, o plano de loteamento criou um conjunto
de 14 lotes para moradias apoiadas sobre uma estrutura viária, que no
desenvolvimento do projecto, acabou por ser articulada com a rede
de acessibilidades construídas na cidade para o Campeonato da Europa
de Futebol de 2004.

Abandonando-se o esquema tradicional de moradia com duas frentes,
cujos logradouros resultantes, quer na frente quer a tardoz, normalmente
não são mais do que pequenos espaços sobrantes do lote, toda a proposta
da urbanização assenta na leitura topológica do lugar e da afirmação
dessa clareza na intervenção urbanística aliada à nossa convicção de que
nesta zona, se impunha não densificar ou massificar mas antes ordenar
e regularizar, no fundo, inverter a tendência negativa quase omnipresente
de aumentar a densidade e a entropia pela ausência do desenho urbano.

Nestas premissas fundamentou-se a claríssima orgânica da proposta,
trata-se assim de criar catorze moradias isoladas de frente reduzida,
permitindo a permeabilidade visual da e para a encosta, fragmentando
a edificação mas tornando-a extremamente ritmada, linear e regular,
de forma a reforçar a leitura de rua. Assim, a uma sequência muito racional
de frentes a que corresponde a referida transparência e delicadeza de escala
edificada, corresponde um muro com alguma expressão que oculta a cave
e delimita e define a rua.

As moradias têm assim uma morfologia longilínea, estreita e profunda,
directamente relacionada com um pátio muito intimista, elevado e cujo
desafogo permite uma vivência generosa não defraudada de vistas
e exposição solar. Para permitir a materialização integral dos 4330m2
de área construtiva devida e conciliá-la com esse desafogo e relevância
urbanísticas, recorreu-se a uma implantação encostada à extrema mas
sem geminação.

Em termos do seu perfil e da sua elevação os pátios propostos resultam
pois directamente da configuração do terreno e da intenção premente
de o relacionar através da intervenção com a cota da Escola já existente
e com o tecido urbano gerado pela própria intervenção. Assim, a elevação
dos pátios impede o esvaimento da rua numa sequência de logradouros
rivais da sua própria leitura criando-se antes um muro contínuo que traduz
a vocação e memória dos taludes presentes no terreno, garante a leitura
pedonal em termos do sentido da circulação e da alameda qualificada
e remete a observação para as vistas a Poente e para o sentido do
desenvolvimento descendente do terreno. Trata-se assim também
da caracterização e qualificação desta rua como tipologia
muito concreta do arruamento urbano num zonamento de moradias
unifamiliares, presente aliás em muitos momentos da cidade consolidada.

Esta questão da transição altimétrica entre o arruamento e o terreno
adjacente ao tardoz dos logradouros das moradias e o nível dos pátios
numa cota intermédia permite igualmente uma maior clareza visual
na fruição destes espaços “corredor”, elevando a linha visual nos pátios
acima da “vivência” no arruamento e recreio da Escola, tornando a sua
vivência mais tranquila, mais qualificada. Por outro lado, o facto de não
encostarmos as moradias aos muros a tardoz, permite-nos uma maior
transparência nesse extremo dos pátios, conferindo-lhes uma sensação
de maior profundidade, aspecto importante na valorização do seu uso.
Deste modo a implantação altimétrica das moradias traduz-se numa cota
«ideal» preenchendo a transição entre a cota superior da Quinta e taludes
adjacentes e a cota do arruamento obrigatoriamente solidária com
a da Escola Primária; assim, a topologia do lugar é respeitada tornando-se
a edificação instrumental na sua reconstituição enquanto leitura
de patamares sustidos por taludes mais ou menos íngremes dotando-se
agora esses dois elementos de um carácter vivencial e consequentemente
formalizado.

Os pátios, cuja exposição solar, tal como a das moradias,
será fundamentalmente a Sul, tornam-se assim no espaço privilegiado
de vivência e para o qual os diferentes compartimentos viverão.
Esta excelente exposição solar, em articulação com a maximização
das áreas permeáveis dos logradouros devidamente tratadas do ponto
de vista paisagístico, maximizando a penetração de água nos solos,
permitirão criar pequenos microclimas mais amenos, mais acolhedores
a uma vivência qualificada. Outras estratégias sustentáveis, tais como
a valorização do desempenho térmico passivo ou a incorporação de fontes
de energia renovável no apoio à produção de A.Q.S., permitirão assegurar
a mais alta classificação na certificação energética das casas.

 

Cliente: Confidencial
Co-autoria: arqtº César Barroso Proença